Com a grande variedade de conteúdos nas redes sociais, serviços de streaming, ou até mesmo com aplicativos que ensinam idiomas, ter acesso à língua inglesa no dia a dia tem se tornado muito comum. Essa realidade pode ajudar no aprendizado que geralmente começa nas aulas de inglês na escola ou, para alguns, em cursos de idiomas. Porém, mesmo com mais oportunidades de praticar o idioma, ainda é muito comum ver pessoas começarem suas interações com falantes nativos do inglês – que nasceram e foram educados em países onde o inglês é uma língua oficial – usando a frase “Sorry for my English”. Uma das razões para isso é muitas vezes apontada como culpa do nosso sotaque. Mas, será que, de fato, o nosso sotaque pode impedir que um nativo nos entenda?
Primeiro, é preciso verificar como nossas habilidades de comunicação em uma língua estrangeira podem ser avaliadas. O inglês, assim como algumas outras línguas europeias, tem suas habilidades comunicativas descritas em uma escala conhecida como Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas (QECR). Esse quadro, criado pelo Conselho da Europa, descreve o que devemos esperar em relação à fala, escrita, leitura e compreensão auditiva, variando conforme o nível de dificuldade. Essa classificação abrange níveis básicos, conhecidos por A1 e A2, os níveis intermediários B1 e B2, e o C1 e C2, tidos como estágios avançados.
Quando analisamos as expectativas do QECR em relação à pronúncia – a principal característica de um sotaque – encontramos algumas descrições sobre o que é esperado em cada nível de fluência. A Universidade de Cambridge tem um departamento que é responsável pela elaboração de provas de proficiência, o Cambridge Assessment (2024). Para eles, espera-se que um falante no nível intermediário B2 – que consegue se comunicar com naturalidade em situações corriqueiras de viagens internacionais – tenha uma pronúncia inteligível, em que “as características da língua-mãe possam ocasionalmente interferir”, com ênfase, ritmo e a entonação usados para “expressar significados”. É interessante observar que os sotaques não são citados nessa descrição. Contudo, a menção à “interferência da língua-mãe” merece atenção – principalmente quando a inteligibilidade daquilo que está sendo dito é comprometida.
Os linguistas canadenses Tracey Derwing, professora emérita da Universidade de Alberta, e Murray Munro, professor emérito da Universidade Simon Fraser, são reconhecidos por suas investigações acerca da aquisição de uma segunda língua. Mais especificamente, ambos estudam como a pronúncia pode afetar a comunicação oral. Para eles, a inteligibilidade é “o grau de correspondência entre a mensagem pretendida pelo orador e a compreensão do ouvinte” (2015, p. 5). Em outras palavras, é quando a pessoa com quem falamos consegue nos entender sem dificuldades. Um sotaque por si só não atrapalha a inteligibilidade, mas alguns fatores de pronúncia podem fazê-lo.
Por exemplo, a pesquisa de Denise Osborne, professora de língua portuguesa na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, mostrou, numa publicação de 2008, que falantes do português brasileiro tendem a produzir a vogal “i” no final de sílabas ou de palavras do inglês. Afinal, muitas palavras do português terminam com o som de “i” em algumas de suas variedades, mas isso é menos comum no inglês. Esse fenômeno pode criar novas sílabas nas palavras e isso faz com que a tonicidade – ter mais ou menos força – mude nelas.
Podemos ilustrar esse processo com a palavra “trabalho”, cujas sílabas são tra-ba-lho. Se um falante estrangeiro adicionasse um “i” no meio da segunda sílaba, poderíamos ter algo como tra-bi-a-lho. Mesmo contextualizada, essa palavra poderia causar confusão para nós brasileiros. Em inglês, “work”, uma palavra de uma única sílaba, pode acabar pronunciada como “wor-ki”, e produzir esse mesmo efeito de sentido. Jennifer Jenkins, uma linguista que trabalhou por muitos anos na Universidade de Southampton, no Reino Unido, lecionando disciplinas, e divulgando pesquisas, relacionadas à importância de vermos o inglês como uma língua global, ressalta o impacto de pequenos sons na pronúncia. Ela destaca que esse tipo de “interferência” na pronúncia é uma “adição” de som que pode prejudicar a inteligibilidade na comunicação (2000, p. 34). Para a linguista, o mesmo pode acontecer se um som for articulado de maneira muito diferente, ou se parte de uma palavra for omitida quando a pronunciarmos.
Quando esses ajustes são feitos na pronúncia, o sotaque não interfere na comunicação. Assim, nossa autoavaliação deixa de ter uma origem linguística e ecoa uma inquietação social.
Essa questão não se restringe apenas a nós, brasileiros, ou à pesquisa sobre línguas em nossas universidades. Em 2009, a pesquisadora Ella Hujala defendeu seu mestrado em Língua Inglesa na Universidade de Jyväskylä, na Finlândia, com uma dissertação que explorou a comunicação em inglês no mundo corporativo. Em seu estudo sobre o uso do inglês em um escritório finlandês, alguns funcionários entrevistados pela linguista afirmaram que viam uma oportunidade de aprender novas palavras com os colaboradores que tinham o inglês como língua nativa, mas também achavam que esses empregados eram “os únicos que realmente sabiam inglês” ali.
Os papéis sociais, em especial as hierarquias, têm um lugar importante em nossas interações e podem causar receio quando vamos nos comunicar com alguém em outra língua. Não devemos nos desculpar por nosso inglês quando somos inteligíveis.
É preciso preservar e valorizar nossa identidade enquanto falantes de línguas estrangeiras, ao mesmo tempo em que prezamos por uma inteligibilidade intercultural – nunca esquecendo que sotaques são expressões legítimas e autênticas da diversidade linguística.
Para saber mais
CAMBRIDGE ASSESSMENT. Speaking Assessment Criteria. Linguaskill, 2024. Disponível em https://www.cambridgeenglish.org/Images/702771-listening-speaking-assessment-criteria.pdf. Acesso em 2 abr. 2026.
DERWING, T. M. & MUNRO, M. J. Pronunciation fundamentals: Evidence-based perspectives for L2 teaching and research. John Benjamins Publishing Company, 2015.
HUJALA, E. English as a Lingua Franca in the workplace: one-size-fits-all? In search for a deeper understanding of Finnish speakers of ELF. Master’s Thesis. University of Jyväskylä, 2009.
JENKINS, J. The Phonology of English as an International Language: New Models, New Norms, New Goals. Oxford: Oxford University Press, 2000.
OSBORNE, D. M. Systematic differences in consonant sounds between the interlanguage phonology of a Brazilian Portuguese learner of English and standard American English. Ilha do Desterro, 55, 111-132, 2008.
