O mundo desta terceira década do século XXI, com suas bigs techs, seus influencers, suas trends, seus likes e seus unfollows, é um mundo em que a ideia de autenticidade se tornou central. O tempo inteiro cada um de nós é incentivado a mostrar “a sua própria verdade”, “aquilo que realmente se é”, “a sua face sem máscara”, “o seu ser autêntico”. Mas uma pergunta parece rondar a todos: até que ponto essa suposta verdade a respeito de si mesmo pode ser espontânea, desinteressada?

O episódio “15 Million Merits”, da série britânica Black Mirror, exibido originalmente em 2011, oferece uma reflexão provocadora sobre essa questão. Na história, jovens passam seus dias pedalando bicicletas ergométricas para acumular créditos, os quais permitem consumir entretenimento e evitar anúncios. Entre as poucas possibilidades de ascensão social está a participação em um reality show de talentos, ao estilo America’s Got Talent. Quando o protagonista decide usar todas as suas economias para subir ao palco, ele não faz uma apresentação comum. Em vez disso, apresenta sua indignação e sua frustração em relação às condições de vida dos jovens que pedalam. Com isso, o público se comove e os jurados, transformando o desabafo em espetáculo, veem na comoção do público uma oportunidade para mercantilizar aquele tipo de manifestação. O resultado é inquietante: inicialmente vista como autêntica, a atitude de indignação do protagonista em relação às condições impostas pelo sistema é rapidamente transformada em mais um produto deste mesmo sistema – produto moldado para e pelos espectadores.

De fato, o episódio da série britânica é ambientado em um cenário distópico, mas isso não o impede de dialogar, diretamente, com a sociedade contemporânea. Afinal, como observa o filósofo francês Gilles Lipovetsky, em seu livro A sagração da autenticidade, na sociedade dos nossos dias, impera uma cultura da autenticidade, mas uma autenticidade profundamente orientada pelo consumo e pela lógica de mercado. Vivemos na era da autenticidade normalizada, generalizada e institucionalizada, em que “‘ser eu próprio’ se tornou a regra, e a não conformidade um ideal e uma forma de ser valorizado. O ideal já não é respeitar as conveniências, ser ‘como deve ser’, ‘conforme’ e ‘normal’, mas escapar aos moldes, expressar a sua individualidade, ser próprio na sua diferença.” (Lipovetsky, 2022, p. 45).

Nesse contexto, a autenticidade se tornou um imperativo, especialmente para quem busca reconhecimento nos ambientes digitais. Ser autêntico se tornou uma das principais estratégias para quem deseja visibilidade. Por isso, não causa espanto que, nos ambientes digitais, relatos íntimos, desabafos e outras supostas demonstrações da vida real passem a seguir padrões reconhecíveis. É que a espontaneidade, paradoxalmente, ganha forma; a autenticidade, contraditoriamente, é roteirizada.

É exatamente essa lógica que o episódio de Black Mirror dramatiza. No episódio, a emoção autêntica do protagonista ganha relevância justamente quando pode ser transformada em produto. E isso porque o sistema não rejeita a suposta autenticidade; ele a absorve, organiza e monetiza. Aquilo que parecia ser um gesto de resistência se torna parte do espetáculo.

E esse é o ponto: sob uma ótica filosófico-linguística, não se pode enxergar a autenticidade como um mero estado mental de quem enuncia, como se fosse o produto de uma consciência individual. Em vez disso, considerando as ideias expostas pelo linguista russo Valentin N. Volóchinov, do tradicionalmente denominado “Círculo de Bakhtin”, a autenticidade deve ser assumida como uma construção discursiva que, como toda construção discursiva, resulta das interações no interior de determinados grupos sociais. E isso tem, no mínimo, duas implicações: de um lado, o fato de que nossas construções discursivas são elaboradas a partir de um conjunto de valores que apreendemos no interior dos grupos sociais que integramos; de outro, o fato de que nossas construções discursivas são elaboradas considerando um determinado interlocutor, com expectativas relacionadas a determinados valores.

Assim, ainda antes de abrirmos a boca, ou de digitarmos o texto no teclado, nossas construções discursivas já foram afetadas pelos grupos sociais que integramos e pelo interlocutor que projetamos. E isso, evidentemente, significa que aquilo que assumimos como espontâneo, desinteressado, autêntico, no fundo, já está em grande medida moldado por nossas relações sociais. Afinal, “na palavra, eu dou forma a mim mesmo do ponto de vista do outro e, por fim, da perspectiva da minha coletividade.” (Volóchinov, 2018, p. 205).

No fim, o episódio de Black Mirror, as palavras de Lipovetsky e as considerações de Volóchinov nos levam a perceber que, no frigir dos ovos, sob uma ótica filosófico-linguística, os ambientes digitais não são muito diferentes da vida que ocorre fora deles. Em ambos os casos, parece urgente compreender como os valores estão no centro das construções discursivas – no nosso caso, no centro da autenticidade – e como as construções discursivas – de novo, no nosso caso, a autenticidade – tendem a moldar parte da realidade humana.

 

REFERÊNCIAS

LIPOVETSKY, Gilles. A Sagração da Autenticidade. Tradução de Inês Guerreiro. Coimbra: Edições 70, 2022.

VOLÓCHINOV, Valentin. (Círculo de Bakhtin). Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução, notas e glossário de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Ensaio introdutório de Sheila Grillo. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2018.

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