Já imaginou subir num palco sem saber a história, o personagem ou as suas falas? É assim que funciona boa parte do teatro de improvisação! Os participantes criam suas cenas e diálogos de modo espontâneo, sem um roteiro prévio e entram de cabeça num jogo de interpretações. A principal base é a criatividade, de forma que a interação com o público colabora na criação da performance.

Com um enorme destaque no Brasil, não podemos falar de teatro improvisado sem citar a Cia. Barbixas de Humor. Fundada em 2004, o grupo é uma parceria entre Anderson Bizzocchi, Daniel Nascimento e Elídio Sanna. O trio conta sempre com a presença de convidados no palco, trabalhando com temas sugeridos pelo público presente, além de serem ativos nas redes sociais, principalmente com vídeos curtos no TikTok e Instagram.

Você deve ter se deparado com inúmeros desses vídeos, talvez aqueles em que os Barbixas satirizam alguma trend ou também os cortes das Cenas Improváveis, o principal quadro do grupo.

É nesse último quadro que, a partir de uma sugestão escrita previamente pelo público, os integrantes criam uma cena completamente do zero. O corte do vídeo a seguir é um exemplo perfeito dessa técnica, sendo o tema “Iscas de pesca improváveis”.

Figura 1 – Imagem do vídeo “Iscas de pesca improváveis”.

Fonte: Página dos Barbixas no Instagram.[1]

 

No vídeo, um dos participantes (Daniel ou Andy) direciona a pergunta a Elídio, de forma que a questão seja sempre uma isca de pesca improvável, ou seja, que ninguém pensaria em usar. Assim, a resposta de Elídio é sempre referente à isca, exemplificando que tipo de animal seria pescado. No caso acima, os integrantes usaram grama como isca e peixe-boi como pesca. Essa dinâmica acaba criando um conflito com o mundo real, uma desconexão que se torna a fonte de humor, assim, no mundo real algo que é impossível (ou improvável) é apresentado como lógico e verdadeiro no mundo da piada. Confuso, não? Calma lá que a pragmática explica!

Antes de tudo, precisamos entender o que é pragmática e sua diferença com a semântica.

Podemos pensar na linguagem como um jogo com vários tipos de regras e, no nosso caso, das regras fixas e das regras do contexto. A pragmática é o estudo de como usamos as palavras e suas combinações no mundo real durante a comunicação, sempre levando em conta nosso contexto social e também situacional. Dessa forma, consideramos o significado do que é dito ou do que se pretende dizer com aquilo. Como, por exemplo, eu e você conversando ou, quem sabe, assistindo uma peça dos Barbixas! Nosso contexto é totalmente baseado naquele momento da peça teatral. Nesse caso, o significado de nossas falas está relacionado ao sentido conversacional, ou seja, o significado que surge dentro da conversa, levando em conta seu contexto, o propósito por trás da fala proferida pelo locutor e as inferências que realizamos.

Por outro lado, a semântica seria o estudo das regras fixas das palavras, ou seja, se estuda o significado “básico” e combinado das palavras, assim como um dicionário. Por exemplo, a palavra “grama” tem um significado que todos meio que “combinamos” de entender, que é o sentido convencional, o dicionarizado das coisas, sabe? Portanto, a partir do dicionário mantemos vivos todos aqueles sentidos e significados que uma palavra possuiu e/ou possui.

Resumindo de forma bem básica, a semântica seria aquela tia chatinha que quer seguir tudo à risca, como está no dicionário! Enquanto a pragmática é aquela tia legalzona, que sempre quer saber todos os mínimos detalhes das suas fofocas! A primeira foca na regra e a segunda prefere prestar atenção no que você quis dizer com aquilo que foi dito. Até aí tudo bem, mas como isso se encaixa no vídeo dos Barbixas?

Vejamos as frases isoladamente, sem contarmos com o contexto do vídeo:

(1) Cê tá pondo grama?

(2) É pra peixe-boi.

Em (1), o significado convencional da frase é apenas uma pergunta simples, questionando se a outra pessoa está colocando grama no anzol como isca para a pesca. Logo, em (2) temos uma resposta direta, evidenciando novamente o sentido convencional ao afirmar que o objetivo da ação de pôr grama é capturar algum peixe. Se uníssemos somente os significados convencionais, semanticamente falando, seria uma interpretação um tanto estranha: “Você está colocando grama no anzol para pescar peixes?” Seria essa, então, a leitura literal na cena, porém, não é algo que faça sentido no mundo real, pois é muito improvável que coloquemos grama para pegar um animal que vive na água.

Agora, vamos adicionar o contexto na explicação, seguindo os estudos de pragmática. Veja a diferença:

  1. Contexto: apresentação de teatro de improvisação, cujo tema é “Iscas de pesca Improváveis”.

(3) Cê tá pondo grama?

(4) É pra pegar peixe-boi.

Em oposição ao campo semântico, o sentido conversacional aqui será outro: em (3), colocamos grama no anzol como isca de pesca; enquanto em (4), Elídio confirma que a grama serve como isca justamente para capturar o peixe-boi. Ele explora o nome peixe-boi para criar o humor da cena, sugerindo que, por ser o boi um animal que come planta, ele poderia, em teoria, ser atraído pela isca de grama. Desse jeito, os Barbixas aplicam uma premissa real (a dieta de um animal) a uma situação irreal (a pescaria de um grande mamífero com equipamento de pesca e isca fora do comum).

Portanto, a graça da performance nasce a partir da desconexão entre o significado convencional (semântica) e o significado conversacional (pragmática).

O primeiro nos leva a imaginar uma situação literal, algo pouco provável de acontecer: pense um pescador colocando grama em seu anzol na esperança de capturar um peixe-boi. Assim, o segundo nos faz refletir na existência de uma lógica interna que, seguindo o contexto do quadro Cenas Improváveis, os atores criam a lógica peixe-boi come grama + isca é comida = grama pode ser usada como isca para pegar peixe-boi. A imagem que teríamos seria, mais ou menos, essa abaixo.

 

Figura 2: peixe-boi falso.

Fonte: Pinterest.[2]

 

[1] Disponível em: <https://www.instagram.com/reel/DCSR5VoPHM-/>. Acesso em: 03 nov, 2025.

[2] Disponível em: <https://br.pinterest.com/pin/6192518232039594/>. Acesso em: 08 nov, 2025.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FERREIRA, Marcelo. Pragmática: significado, comunicação e dinâmica contextual. São Paulo: Editora Contexto, 2023, p. 15-18.

BARBIXAS. Iscas de pesca improváveis. [Vídeo]. Instagram, 12 de novembro de 2024. 1 vídeo 56 segundos. Publicado na conta Barbixas. Disponível em: <https://www.instagram.com/reel/DCSR5VoPHM-/>. Acesso em: 03 nov, 2025.

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