É provável que muitas e muitos de nós acreditemos que o medo de falar em público é um sentimento individual. Também é possível que acreditemos que a leitura de manuais de oratória seja um dos meios para sua superação. Afinal, somos expostos a uma ampla oferta desses títulos no mercado editorial. Com frequência, encontramos esses manuais e obras semelhantes de autoajuda em lugares de grande circulação, como quiosques em terminais de passageiros, bancas de jornais e vitrines de livrarias.

As pesquisas que temos feito sobre história da fala pública nos permitem desconstruir essas e outras de nossas crenças. Trataremos de algumas delas aqui, por meio da apresentação de certos resultados dessas pesquisas e de uma breve análise dos títulos de 4 manuais de oratória publicados no Brasil, ao longo do século XXI.

Na história do chamado mundo ocidental, a fala púbica considerada inteligente, ética e bela se tornou um bem raro e quase exclusivo de pouca gente. Conforme veremos, a manutenção desse privilégio compreende a produção do medo de falar em público, principalmente entre sujeitos de classes e grupos sociais subalternizados. Indicaremos também como processos históricos e relações sociais fizeram do medo um dos afetos mais presentes no campo da fala pública.

Esse medo não é algo único. Ao contrário, sob a etiqueta “medo de falar em público”, há desde discretas inibições até graves fobias. Tais sentimentos se modificam no tempo e variam no espaço. Os medos são diversamente experimentados pelos sujeitos de distintas eras e de diferentes classes e grupos de uma sociedade. Essas mudanças e variações do medo já foram constatadas por historiadores das emoções. Um dos mais conhecidos é Jean Delumeau, autor de História do medo no Ocidente. De modo geral, porque foram afastadas da atuação política e da formação retórica para falar em público, conforme mostramos em A fala feminina: silenciamentos e resistências, as mulheres tendem a sofrer mais do que os homens das várias formas desse temor.

Essa diferença está articulada à distribuição desigual dos medos entre integrantes de elites econômicas, de classes médias e de camadas populares. Além do econômico, aqui contam também os capitais sociais e culturais dos sujeitos privilegiados, ou seja, sua educação formal de boa qualidade, sua frequentação familiar de práticas e de representações legitimadas da fala pública e o reconhecimento social de seus desempenhos.

Da desigual distribuição desses capitais deriva, grosso modo, certa raridade de medos “aristocráticos”: vide o caso excepcional de George VI, antigo rei da Inglaterra, retratado no filme O discurso do rei, de 2010. Deriva ainda uma relativa frequência de medos “burgueses”, tais como os de alguns intelectuais: o filósofo e político romano Cícero, o escritor russo Liev Tostoi e o crítico literário francês Roland Barthes. Deriva, enfim, uma onipresença de medos “plebeus” da fala pública, que se pode atestar com as prováveis respostas que pessoas das classes populares dariam à pergunta: “Você tem medo de falar em público?”.

Há ainda outros fatores importantes que tanto produzem quanto tendem a aumentar esses medos, tais como raça e sexualidade. Em nossa sociedade, as falas de pessoas negras e transgêneras costumam a ser mais marcadas negativamente do que as de pessoas brancas e cisgêneras, que se beneficiam de suposta universalidade. Maiores ou menores domínios da língua culta e de comportamentos considerados elegantes também determinam as diferenças de experiência do medo de falar em público.

História e sociedade dominadas por classes privilegiadas criaram e consolidaram certo cânone oratório e construíram uma eloquência idealizada, sob a forma de raras falas públicas que reuniriam em si compromisso ético, capacidade cognitiva e beleza formal. Essa raridade é positivamente avaliada pelo crivo de padrões oratórios relativamente estáveis e mais ou menos renovados. Em histórias da eloquência, são praticamente sempre os mesmos nomes que aparecem: Demóstenes e Cícero, na Antiguidade; o padre Girolamo Savonarola, no Renascimento italiano; o político Honoré de Mirabeau, na Revolução Francesa; o primeiro-ministro da Inglaterra Wiston Churcill, na Segunda Guerra Mundial; e o político Rui Barbosa, entre o final do século XIX e o começo do XX no Brasil.

Quase nunca levantamos dúvidas sobre o que é a eloquência… e sobre as falas que não correspondem a seus modelos. A solidez desses padrões “evidentes” de excelência oratória é em larga medida responsável pela produção, pelo aumento e pela naturalização do medo de falar em público. Quanto menor for o domínio desses padrões por possíveis oradoras/es, maiores tendem a ser seus medos da fala pública.

Nos manuais contemporâneos de oratória, a reprodução de discursos desse medo é frequente. Em geral, seus autores têm autoridade e suas obras, legitimidade. Considerando esse cenário, vejamos os títulos de 4 desses manuais brasileiros publicados mais ou menos recentemente:

 

Vença o medo de falar em público, de Reinaldo Polito (2005)

Perca o medo de falar em público, de José Henrique de Souza (2011)

Adeus ao medo de falar em público, de Ruth Rocha Pombo (2016)

Acabe com o medo de falar em público, de Thiago Diaz (2023)

 

O fato de o termo “medo” ser ali precedido de artigo definido no singular produz um efeito de evidência: “Sabemos que ele existe e o que ele é”. Também se produzem uma imposição individual a seu enfrentamento e uma promessa de sua superação definitiva. Além disso, há um aparente sentido contraproducente, conforme veremos abaixo.

Dizer “Não fique nervoso” costuma aumentar a irritação do interlocutor numa discussão. Nos títulos desses manuais, não há uma sugestão negativa (“Não tenha medo de falar em público”), que poderia produzir a emoção que se pretenderia reduzir ou eliminar. Nem por isso, deixam de construir um semelhante efeito aparentemente contraproducente do medo. Para fazer um anúncio de técnicas oratórias, não é preciso necessariamente se referir ao medo da fala pública. Ao fazê-lo, o sentimento a ser vencido ou eliminado não só é mencionado, mas também ativado e destacado nesses manuais, a começar por seus títulos.

Já as predominantes opções por verbos no modo imperativo afirmativo, em segunda pessoa do singular (“Vença”, “Perca” e “Acabe”), produzem um chamamento e uma injunção pessoais. Nos títulos dos manuais, não há um “não” nem outra forma negativa e seus efeitos de repressão. Há ali os estímulos de um “sim” e da promessa de um pequeno “milagre”: a superação de diversos medos da fala pública, mediante o “empoderamento” pessoal e a leitura avulsa de uma simplificada obra instrucional: “Você pode superar esse medo!…, basta ler o manual”.

Assim, tudo se passa como se nada fugisse da possibilidade e da pessoa, quando se trata efetivamente de fenômeno político, social e educacional. Diante do alegado problema pessoal, se apresenta uma solução individual: ler sozinho um manual de oratória. O medo de falar em público é projetado, nos manuais, como um sentimento único e particular, que reside em cada pessoa, a quem cabe isoladamente sua ultrapassagem.

História, sociedade e relações de poder são apagadas, enquanto supostas liberdades e capacidades individuais são ressaltadas, fora de qualquer formação institucional contínua. É desse modo que se constroem a responsabilização subjetiva, o empenho requerido de cada pessoa e a culpa que lhe é imputada.

Ao cabo da leitura isolada, sem quadro institucional, sem mediação profissional, sem exercício coletivo, sem frequentação de circunstâncias de fala e sem práticas desenvolvidas continuadamente, se o milagre prometido não ocorre, possivelmente, a maioria dos sujeitos não só continuará a ter medo da fala pública, mas também aumentará o mal-estar da permanência dessa angústia, após ter lido o manual. Ao medo de falar em público se somarão a frustração e a culpa.

 

Para saber mais

ARNOUX, Elvira. Retórica, civilidade e controle das emoções como distinção social. In: O discurso e as emoções: medo, ódio, vergonha e outros afetos. São Paulo: Parábola, 2024, p. 59-78.

BRAGA, Amanda; PIOVEZANI, Carlos. A fala feminina: silenciamentos e resistências. São Paulo: Jandaíra, 2025.

COURTINE, Jean-Jacques.; PIOVEZANI, Carlos. (Org.) História da fala pública: uma arqueologia dos poderes do discurso. Petrópolis: Vozes, 2015.

COURTINE, Jean-Jacques.; PIOVEZANI, Carlos. A era da ansiedade: discursos do medo no império das emoções. Petrópolis: Vozes, 2026.

DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

NOVAES, Adauto. (Org.). Ensaios sobre o medo. São Paulo: Editora Senac / Edições Sesc, 2007.

PIOVEZANI, Carlos. A voz do povo: uma longa história de discriminações. Petrópolis: Vozes, 2020.

PRADO, Bernat Castany. Una filosofia del miedo. Barcelona: Anagrama, 2022.

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