Diga crocante em voz alta. Ouça o som que a palavra produz, como se fosse o barulho de algo rígido e seco sendo mordido. Agora pronuncie sussurro. Sinta como sua pronúncia parece fazer o que ele próprio descreve, baixinho, quase em segredo. É tentador imaginar que existe um vínculo entre o som de uma palavra e o que ela significa. Mas será mesmo que as palavras têm alguma ligação natural com aquilo que nomeiam ou essa relação existe apenas porque as pessoas entraram em acordo?
Questões sobre a linguagem são tão antigas que os filósofos gregos já quebravam a cabeça tentando respondê-las. Há mais de dois mil anos, Platão escreveu sobre um debate entre dois pensadores. De um lado, Crátilo defendia que os nomes eram cópias da realidade, quase como um retrato do mundo; do outro, Hermógenes batia o pé dizendo que as palavras são apenas “combinados”, do mesmo jeito que decidimos um apelido num grupo de amigos. Longe de um tudo ou nada, hoje podemos dizer que certas palavras guardam, sim, um pouquinho daquilo que nomeiam e, ainda assim, são resultado de acordos.
Muitos séculos depois de Platão, o jeito de estudar como a linguagem reflete o mundo se modificou. No final do século 19, o pensador norte-americano Charles Peirce buscou entender como imagens, gestos, palavras etc. (chamados de signos) permitem representar e interpretar aspectos da realidade. Para explicar isso, ele classificou essas formas de representação em três grupos, conforme o tipo de relação que mantêm com aquilo a que se referem: por semelhança direta; por uma conexão física ou causal, como a febre que indica doença; e por convenção, isto é, um acordo, como a maioria das palavras. Denominou, respectivamente, essas categorias como ícone, índice e símbolo. Verbos como zunir, tilintar e cacarejar, por exemplo, soam parecidos com aquilo que descrevem, apresentando algum grau de iconicidade sonora – a representação baseada na semelhança.
Do outro lado do Atlântico, no início do século 20, Ferdinand de Saussure percorreu outro caminho para estudar os signos linguísticos. Podemos compará-los a duas faces inseparáveis de uma moeda. Em uma, há o som mental (o significante); na outra, o conceito (o significado). Pense em mesa. Você conseguiu “ouvir” a palavra na sua cabeça mesmo sem pronunciá-la, certo? Saussure deu a esse som mental o nome de imagem acústica. O som e o conceito estão associados e, juntos, formam uma palavra. Essa associação, porém, não tem motivo aparente. Nada na sequência sonora de /meza/ aponta para um móvel com tampo e pernas. É por isso que existem signos tão diferentes para um mesmo objeto: mesa em português, table em inglês e Tisch em alemão.
Para Saussure, cada signo só ganha sentido pelas relações que mantém com os demais dentro da língua. Além disso, o linguista defende que a relação entre som e conceito só se mantém porque uma comunidade compartilha uma língua e aceita, mesmo sem perceber, as convenções (os combinados) que a sustentam. É isso que Saussure chamou de arbitrariedade do signo linguístico.
No entanto, a teoria da arbitrariedade às vezes é interpretada de modo superficial, como se nenhuma palavra pudesse guardar qualquer vestígio de ligação entre o som mental e o sentido. Isso é uma simplificação do que Saussure teorizou. Se levarmos a arbitrariedade ao pé da letra, perdemos a chance de explorar casos interessantíssimos nas línguas.
De modo geral, palavras são, sim, arbitrárias, como disse Saussure. Isso não o impediu de reconhecer que cada língua tem suas particularidades, podendo, vez ou outra, deixar transparecer um pouco do significado de um signo através de sua forma. Quando os “pedaços” de uma palavra permitem ver a lógica que a sustenta, o linguista afirma haver uma arbitrariedade relativa. Repare que dezenove revela a matemática que o criou, dez mais nove, enquanto vinte não dá pista alguma sobre seu sentido. Essa transparência na formação das palavras é diferente da motivação sonora, em que o som lembra o que o signo representa, como nas onomatopeias. Aliás, essa busca por “transparência” não se restringe aos sons das línguas orais e se manifesta também na forma visual.
Nas línguas de sinais, a convivência entre “imitação” e “combinado” aparece de forma interessante. Quer um exemplo? Note a descrição de um dos sinais para a palavra árvore em Libras: o cotovelo é apoiado na parte de cima da mão, o antebraço fica na vertical, e os dedos abertos simulam os galhos da copa. Já em uma das variantes da Língua Chinesa de Sinais, duas mãos paralelas representam o tronco da árvore crescendo a partir do solo. Em ambos os casos, os sinais remetem visualmente a uma árvore.
Sob a ótica de Peirce, são ícones; em interpretações posteriores baseadas na teoria de Saussure, podem ser entendidos como signos motivados pela semelhança, e não pela estrutura interna do signo, como ocorre em dezenove. Foram as comunidades linguísticas que selecionaram qual traço do sinal foi destacado e o modo como foi gestualizado.
Nas línguas orais, as onomatopeias, aquelas velhas conhecidas por imitarem sons, mostram como motivação sonora e convenção atuam juntas. Já se perguntou se o au-au do cachorro ou o piu-piu do passarinho são iguais em todas as línguas? Na verdade, eles mudam de uma para outra. Não seria absurdo dizer, então, que um cão “late” diferente em inglês – ou, melhor dizendo, que o inglês representa esse latido de outro modo! Nesse caso, é woof-woof em vez de au-au. Essa variação acontece porque cada língua tem o seu próprio estoque de sons e suas regras de combinação entre eles. Mesmo quando tentamos imitar sons do mundo (como o barulho de um bicho), a nossa língua “molda” o som para se encaixar no próprio sistema. Onomatopeias, por mais motivadas que sejam, continuam submetidas a acordos da comunidade linguística.
De volta à palavra crocante, que você leu em voz alta lá no início, vemos que ela é um bom exemplo de motivação sonora. Essa sensação de que crocante tem “crocância” está ligada à sua história. Esse adjetivo deriva da palavra francesa croquant, que remete ao som de algo sendo mastigado. Provavelmente tem uma origem onomatopaica, criada para reproduzir o “croc” da mastigação. Com o tempo, essas pistas sonoras podem enfraquecer à medida que as palavras vão mudando. Em certos casos, porém, ainda permanecem traços suficientes para que se note uma aproximação entre a forma da palavra e aquilo que ela expressa.
E o que dizer do sussurro? É sua história que o “autoriza” a sair sussurrando por aí? Derivada do latim susurrus, a palavra preserva o “truque” original de repetir uma sílaba para dar ênfase a alguma impressão sonora, chamado de reduplicação. A repetição do “su-su”, herdada de sua origem latina, ajuda a criar proximidade com o chiado do ar. Quando pronunciamos sussurro hoje, ainda preservamos como vestígio esse chiado prolongado do “s”, criando a impressão de alguém falando baixinho. Outro exemplo parecido é a palavra inglesa whisper, que tem provável origem em uma antiga raiz germânica (hwis-), que também parece ter sido motivada pela tentativa de reproduzir o sussurrar.
No fim das contas, tanto Crátilo quanto Hermógenes tinham um pedacinho da resposta sobre a representação. As línguas funcionam graças às convenções; algumas palavras, porém, ainda carregam pistas de seu sentido ou do som que procuram representar. Motivação e arbitrariedade não são incompatíveis, e essa coexistência entre ambas é uma faceta estimulante dos estudos da linguagem.
Da próxima vez que você disser crocante ou sussurro, talvez as escute de outro jeito. Afinal, a impressão da quebra de uma e do sopro da outra não surgiu por acaso. Trata-se de um vestígio de uma longa história linguística em que criatividade humana e convenção passaram a caminhar juntas.
Saiba mais
BAGNO, Marcos. Objeto da linguística. In: SAUSSURE, Ferdinand. Curso de Linguística Geral. Tradução, notas e posfácio Marcos Bagno; apresentação Carlos Alberto Faraco. São Paulo: Parábola, 2021.
GODOY, M; ANANIAS, T. C. A arbitrariedade nos trabalhos sobre iconicidade lexical. Veredas – Revista de Estudos Linguísticos, Juiz de Fora, v. 29, n. 2, 2025.
NÖTH, Winfried. Iconicidade linguística desde F. de Saussure e C. S. Peirce. Estudos Semióticos, São Paulo, Brasil, v. 21, n. 3, p. 65–83, 2025.
PLATÃO. Crátilo. Trad. de Celso de Oliveira Vieira. São Paulo: Paulus, 2014.
WINTER, B.; WOODIN, G.; PERLMAN, M. Defining iconicity for the cognitive sciences. In: FISCHER, O.; AKITA, K.; PERNISS, P. (Orgs.). The Oxford Handbook of Iconicity in Language. Cambridge: Cambridge University Press, 2026.

