Já reparou como a nossa voz e o nosso jeito de falar podem dizer muito sobre nós? No dia a dia, quando conversamos com alguém, ou até mesmo quando só ouvimos a voz
de uma pessoa, acabamos criando uma ideia sobre ela: de onde veio, quantos anos tem e às vezes até sobre sua orientação sexual. É justamente isso que alguns
linguistas vêm estudando: como certas características da nossa fala mudam de acordo com o papel social que desempenhamos. E aqui no Brasil, um assunto que tem
chamado a atenção é o “soar gay”.

Antes de tudo, porém, é importante entender que “ser gay” e “soar gay” são coisas diferentes. Uma pessoa pode ser gay e não “soar gay” ou vice-versa. O foco dos estudos é entender como a sociedade percebe e interpreta certas qualidades da nossa fala e como essa percepção acaba por perpetuar certos estereótipos. Pesquisas assim nos ajudam a decifrar quais detalhes da voz as pessoas interpretam como marcas de uma identidade, abrindo caminho para combater preconceitos como a homofobia. Não é possível enfrentar a intolerância contra um jeito de falar sem antes compreender como ele funciona.

Falando sobre o “soar gay”, uma coisa com a qual as pesquisas vêm concordando sobre esse assunto, é que não existe uma única característica, mas sim
um conjunto de qualidades que, juntas, ajudam a criar uma percepção social. Para investigar mais sobre esse assunto, o professor Ronald Beline Mendes, da USP, fez
uma pesquisa na qual gravou cinco homens lendo um texto e pediu para que 106 ouvintes classificassem quais das gravações soavam “mais e menos gay” e por quê.
Vale dizer que todos os leitores eram de fato gays, mas os ouvintes não sabiam disso.

Ao observar as justificativas das respostas, deu para perceber um certo padrão. As falas que os ouvintes entenderam como as “mais gays” foram as que
apresentavam, principalmente, o alongamento de certas vogais e uma diferença maior entre o ponto mais agudo e o mais grave da fala.
E sobre esse fenômeno, os pesquisadores Suzana Ferreira Paulino e Eduardo Barbuio publicaram um estudo no qual investigaram como as pessoas percebem a
sexualidade através da voz, prestando atenção exatamente nesse fenômeno que chamamos de dinamismo de pitch. O experimento contou com 75 ouvintes que
avaliaram as falas de sete homens gays e sete homens héteros. A pesquisa chegou à conclusão de que as falas dos homens gays entrevistados realmente tiveram uma
variabilidade maior do pitch, ou seja, suas vozes tinham uma diferença maior entre o pico mais alto (agudo) e o pico mais baixo (grave), em comparação aos demais
entrevistados.

Os pesquisadores também compararam esses resultados com uma pesquisa parecida feita em língua inglesa e perceberam que as médias de variação do pitch dos
homens gays falantes de português e falantes de inglês eram mais parecidas do que a média de variação dos homens heterossexuais. Essa semelhança fez com que os
autores levantassem a hipótese de que talvez, muito talvez, existam algumas características universais da fala gay, algo como um “sotaque gay” mundial.
Voltando à pesquisa de Mendes, é interessante notar como a percepção do “soar gay” vai além dos aspectos linguísticos, sendo influenciada também por alguns
estereótipos sociais. Por exemplo, os ouvintes associaram o “soar gay” a uma ideia de que os homens gays das gravações falavam mais “certinho”, sem “errar” o plural das
palavras, coisas que, na linguística, sabemos não serem acertos nem erros, mas variantes naturais e sistêmicas da língua que, por diversos fatores sociais, não
recebem tanto prestígio.

O curioso é que, nessa pesquisa, as gravações ouvidas foram de homens lendo um texto que não apresentava nenhuma variação da norma culta. Isso nos
sugere que as percepções dos ouvintes podem estar sendo influenciadas por estereótipos sociais internalizados por eles, como a ideia (errônea) de que um homem
que fala mais “certinho” é aquele que se dedicou mais à leitura e aos estudos, atividades que, dentro dessa lógica estereotipada e preconceituosa, não são
características de homens heterossexuais. Aqui cabe ressaltar que esses preconceitos não estão enraizados somente nesses participantes da pesquisa, mas sim na
sociedade como um todo.

É por isso que, mesmo com um número tão baixo de dados, coletados de um grupo relativamente restrito de falantes, principalmente quando comparamos com a
população extremamente diversa e numerosa do Brasil, essas pesquisas parecem, pelo menos, nos mostrar um caminho a seguir, afinal, o fato de somente algumas
dezenas de ouvintes concordarem com uma classificação pode parecer pouco, mas não podemos negar que essa consistência nas respostas pode nos revelar um certo
padrão, pelo menos na realidade social desses indivíduos.

Muitas vezes essas percepções acabam por nem serem racionalizadas pelas pessoas porque já fazem parte da construção social que as formou como sujeitos. Eles já possuem em suas mentes uma ideia pré-formada de como uma pessoa gay fala. O que estamos tentando entender com as pesquisas é justamente as características dessa fala que habita as mentes desses sujeitos, dessa sociedade em geral.

Mais do que nos trazer conclusões, esses estudos levantam algumas perguntas importantes: será que nós conseguimos mesmo identificar a orientação
sexual de alguém só pela voz? E se o ouvinte for da mesma orientação sexual do falante, isso pode influenciar essa percepção? Gays de São Paulo falam igual aos gays
do Maranhão, ou do Paraná, ou do Mato Grosso? Existe mesmo um “soar gay”? Talvez o “soar gay” dependa muito mais do contexto, da sociedade, dos estereótipos e das
experiências do ouvinte do que necessariamente de quem fala, e bater o martelo sobre esse assunto seja tão difícil quanto definir qual o melhor disco da Gaga.

 

Saiba mais:

BARBUIO, Eduardo; PAULINO, Suzana Ferreira. Percepção de gênero por meio de
características acústicas da fala e variabilidade do pitch. Alfa: Revista de Linguística,
São José do Rio Preto, v. 65, 2021. DOI: 10.1590/1981-5794-e13450. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/alfa/a/tmKMystVTXd4CNp6QQZPk3c/?lang=pt.

MENDES, Ronald Beline. A percepção sociolinguística do soar gay. Conferência
apresentada no evento Abralin ao Vivo. [S. l.: s. n.], 24 jun. 2020. 1 vídeo (2h 04min).
Publicado pelo canal Abralin.
https://www.youtube.com/watch?v=WIX8I1OY5Z8.

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